Ouvimos o ep homônimo dos porto-riquenhos dos Ardillas e gostamos demais da pegada punk argentino dos 90. É tudo acelerado, urgente, com coros agitados, e, em faixas como “Nancy”, “Todo es igual” ou “El tren”, generoso nas guitarras melódicas.
O disco está inteiro para ouvir no bandcamp da banda. Passa lá.
Reservamos o fim de semana, que foi de reposição de fôlego, para falar de dois mestres da música ambiente, de paisagem, na Argentina e na América Latina. Ontem, teve o novo lindo disco de Federico Durand; hoje, a manhã começa com Juan Stewart e seu quinto disco, homônimo, editado novamente pela Estamos Felices.
Juan Stewart reencontra as raízes de El silencio de las cosas, tanto mais sereno, mais feliz, otimista, com 9 faixas cujos títulos enumeram as trilhas - o resto é por sua conta, por minha conta, pela conta de cada um. A faixa “3”, por exemplo, chamaria de “Metrònom”, em homenagem às noites de música e amizade que não esqueci em Barcelona. Tem um vento soprado no fundo que é saudade para sempre.
O passo tranquilo de “Uno” volta a dar as cartas na belíssima “Cuatro”, cuja melodia imediatamente sedutora contrasta com a corrente dissonante de “Dos”. “Cinco” é de um encanto extraordinário, com sozinhos delicados encadeados até a aparição da bateria, arrastada, circular, numa espécie de encontro, ou reencontro, com o mundo que faz a gente querer continuar no mundo, onde a dor e o amor existem de mãos dadas - tudo, em ordem e no lugar, machuca o que tem que machucar. Nem mais, nem menos.
No mesmo rastro, juntando os melhores momentos do álbum, “Seis” abraça o inconfundível Rhodes de Juan e fica discretamente para trás, quando “Siete” chega para dizer que estamos em paz. Depois, vem “Ocho”, meio juguetona, longa e com uma guitarra deliciosa. ”Nove”, uma das escolhidas para divulgar o álbum, e que ouvimos já há alguns meses, é alvorada pura, clarão imenso, brilhante, e permanece como uma das nossas favoritas.
Vamos de Juan, rapaziada. É o território dos grandes, o risco dos bons.
Já devo ter dito isso aqui alguma vez, mas, além de domador de melodias, Federico também é professor de literatura na rede pública de ensino, em Buenos Aires.
Consigo imaginar o primeiro contato com os alunos, nessa cidade embaixadora da melancolia: de cara, o estranhamento, a quietude, e, em seguida, o encantamento. Porque o jeito manso e profundo de falar, a vontade de travar pactos justos e sinceros, é o que conduz Federico na música e na vida, e é o que faz dele uma das figuras mais fabulosas da música e da arte contemporânea na América Latina.
Estou segurando o extraordinário El libro de los árboles mágicos, coleção de delicadezas e sons emprestados das paisagens do rio Anisacate, editado pela Home Normal. Me lembro de um almoço que celebramos na Liberdade, em São Paulo, quando Federico me avisou que o tempo passa rápido, mesmo na paz invencível dos bosques onde mora sua mãe, no norte do país. Fico imaginando que Federico celebra sempre a amizade, a fraternidade, e a aparente fragilidade do mundo que recria em seus discos é, na realidade, seu maior escudo.
Se você se perde e se encontra numa maravilha do tamanho de “La edad del bosque”, que conhecemos em 2009, no lançamento de Cuadernos Cecilia; você mergulha fundo no que mais deixa saudade, ouvindo “La niebla cambia de color”. E penso nos dias em que ia com meu pai buscar meu irmão na mesma faculdade em que meu pai estudou - brincando, mas falando sério, perguntava: “pai, quando você se lembra disso tudo aqui, você se lembra com a cor que tem hoje?”. No fundo, acho que não.
Federico tem se tornado uma das grandes referências entre os compositores ambient e eletroacústicos de hoje. Ainda bem.
A primeira coisa em que pensei ao ouvir o ep de estreia de Violeta Castillo e a abertura “Mi cárcel”, tempo atrás, foi numa brisa gelada de um dia de sol, como a que São Paulo inteiro está sentindo hoje. Bonita.
Quando falta tempo, o pouco tempo que sobra a gente gasta em movimentos de alegria, ilusão e prazer. Bem isso, porque é isso que escolheu fazer com música, tem esse segundo disco do argentino Guazuncho,projeto do já maestro e ídolo Iñaki Zubieta.
Estamos falando de um ep que novamente escolhe ser melódico, às vezes com confusão, via de regra delicado e sempre relevante.
Comece pelo começo, pela circular e fabulosamente linda “En la avenida”. Imagine que pode ser em Buenos Aires, em Barcelona, Berlim ou em qualquer outra cidade que começa com B. Siga a marcha com a errante “Donde vayas.” Psicodelia, folclore, Beatles e paisagens românticas também estão em “El jardín”.
Com “Cauce”, as sobreposições de um acordeón cheio de reverbs, no melhor estilo neu musik, armam introdução para uma canción que respira tradição, violões bonitos e versos trovadores. “Raga” tem intro semelhante, com direcionamento mais pop. E são lindos o compasso em “Plaza de la cruz” e a fórmula mezzo Roy Orbison + Piazzolla de “Recuerdo”.
Diferentemente do que acontece quando escuto a maior parte da música independente latino-americana, aprendo castellano com Guazuncho. Usa palavras minuciosas, precisas, que recuperam beleza e tradição na música argentina. Isso tudo com cara de alguma coisa nova, levemente experimental e completamente acessível. É um mestre. A gente tem que aplaudir.