
Parece que temos um novo favorito em casa.
Imagino Iñaki Zubieta sentado num banco de madeira, numa sala de parede esverdeada, experimentando melodias com a voz, melodias com o assobio, melodias com o violão. Nessa tarde, tem uma porteña linda, cabelo escuro, comprido, almofada no colo, esquecendo a hora. Depois, imagino Iñaki experimentando efeitos, experimentando textos, repensando hits que ouviu tocar na sala dos pais, na rádio do supermercado e nos filmes que tentou entender pelo caminho. Imagino Iñaki com um acordeão na mão, especulando sobre 10 anos de saudade, sobre Piazzolla, sobre Mulligan. Imagino Iñaki, com e sem fôlego, porque o tempo está passando, as coisas que importam estão ficando diferentes, cada vez mais rápidas, cada vez mais. E doendo, sem machucar tanto assim.
Abrir o disco com essa maravilha néon chamada “Puerta”, só para ameaçar ser pop e recuar, sendo ainda pop, mas vestindo poesia e lamento cancionero, é sorte de poucos, talento de sortudos. São camadas de vozes distorcidas, teclado de piscodelia controlada e aparições da melodia tão parente da sanfona.
Mesma linha, com um inesperado toque beatle mutante, faz a belíssima “Poema”. Tudo sempre rico, pouco óbvio e orquestrado com o melhor dos gostos. “Siempre en mi mente” vislumbra um folk star latino-americano, fã dos pampas e dos violões que respiram o ar do sul. Tem topete de Elvis, sem gel.
A marcha dos “Caballos”, que avançam e resistem, poderia ser também um tablado para flamenco num enredo de ficção assinado pelo sempre maestro da poesia cortante, Saura. Tem - e também precisa ser ouvida - a bossa-aboleradíssima de “Los árboles del sol”, que Iñaki usa para dizer “meu destino é tropical”. E é. Mesmo na discrição de “En sus manos”, quando zanzamos entre um “parece, mas não é”, “será mesmo?”. Talvez.
Guazuncho é maravilha. Descanse na sala de casa, exercite a saudade das ideias fora de moda, adivinhe o tempo de quarta-feira que vem e sorria. Tem música que existe nisso tudo só para erguer a possibilidade de um mundo sem nada disso. Escute. E divulgue.

Guazuncho X Las Liebres: como é a convivência?
Las Liebres é o produto do trabalho em conjunto, as ideias são democráticas, e buscamos a fusão dos gostos de cada um. Dois dos Las Liebres moram em Corrientes, e eu, em Buenos Aires, de modo que mantemos contato por internet e telefone para organizar as gravações e os shows. Nos encontramos várias vezes por ano, para compor juntos. Guazuncho sou eu sozinho e as minhas canções.
A música do Guazuncho tem forte sotaque “experimental andino”. O que a América Latina tem de mais bonito?
Gosto muito da música de vanguarda e também das canções simples. A produção sonora é um aspecto importante, mas gosto muito do folclore; é a música daqui – usar acordeão ou charango é bonito. Gosto especialmente do folclore argentino, brasileiro e uruguaio, mas o Paraguai tem música excelente também. Acredito que a música do mundo todo está conectada.
Covers: por que sim, por que não?
Não sou contra os covers; gosto tanto dos que são fiéis às músicas originais como das versões totalmente deformadas. É melhor fazer cover do que música que soe igual à dos outros.
Um livro pode chegar a mudar as nossas vidas?
Livro: a biografia definitiva de Miles Davis, por Ian Carr. Gosto muito dos libros que descrevem música com palavras. Ficamos imaginando como são as apresentações totalmente improvisadas de Miles. A maneira que tinha de encarar música é uma coisa incrível.

