
Quando ouvimos Diosque por primeira vez, lá atrás, em 2007, entendemos que a poesia que Juan Román estava propondo tinha novidade entre os artistas independentes argentinos e latino-americanos. Diosque brinca em cada música sua, arrisca estranhezas e maneiras de soar freak, diferente, sem perder de vista o reino da melodia, que é o paraíso perdido da música popular.
Agora, depois de tempos experimentando em singles digitais e modelos esquisitos, Diosque, que já tinha regalado os excelentes I Can Ción e Música que no recuerdo haber hecho, retorna com o acertadíssimo Bote, divulgado como seu primeiro disco de estúdio. O trabalho condensa a extravagância de um dos compositores mais interessantes da música contemporânea e pop feita na Argentina. Extravagância e delicadeza, fórmula aparentemente improvável, mas totalmente possível e redonda nas guitarras e efeitos orquestrados por Diosque.
Falamos de “Aquí” há alguns meses. E, agora, tornamos a prestar atenção às letras, mais encantados ainda com versos como “con ese vestido gris, perfumada de mi asombro”. Na seguinte, “Tren de Lucila”, partimos de uma levada meio “Enero” (das nossas prediletas dos discos anteriores de Diosque), para erguer uma balada climática, de naipes delirantes.

Em “La dictadura de tu belleza”, reconhecemos um pouco de herança de Sueño Stereo, antes de chegar a “Camioneta”, favorita pela suavidade e pelos coros carregados de saudade. A seguinte, “Melancolía del futuro”, prega que “Melancolía y Futuro es lo mismo para mí”, e nosotros, tantas vezes reféns da falta do que já passou, ficamos tentados, quase convencidos, a imaginar que gastamos energia demais olhando para o lado errado. O que mais dói é a certeza nenhuma dos sapatos que teremos nos pés depois de amanhã.
Surpreendente a nova versão de “Basural”, uma das melhores faixas de “I Can Ción”. Pensei em escrever e perguntar sobre a reaparição, mas preferi subir o volume e ficar ouvindo, de novo. Ficou tão melancolía del pasado, que qualquer explicação poria tudo a perder. Um passo atrás: “Mal y bien” é linda.
“La mañana”, também em versão nova, e “Ya no impor” dominaram todas as nossas preferências e são nossas nº1. “Los días vienen huecos, serán espacios (huecos) que llenar / haré cualquier cosa, me inspira la casa.” Com intervalos ou crescendos sônicos, são muito, muito bonitas. “Ropa prestada” também tem folk, pop e psicodelia. Merece seu tempo.
O fim apoteótico atende por “Dos”, sob interferência espacial, com direito a colagens de ukelele, “Ya no impor”, sintetizadores e parte da melodia de “Bolero”, de Ravel. Beleza translúcida; água potabilíssima.
Juan Román Diosque, tu é nobre.

