
Em 2007, Félix Cristiani editou o excelente La vida secreta, incluído em 10 das 10 melhores listas com os melhores do ano. Lançado na Argentina, o disco também foi publicado no Chile e mostrou uma levada folk-pop psicodélica finíssima. “Molestias”, a preferida, tinha tempo loopeado e backing feminino, tudo no mais puro charme.
Agora, quase quatro anos depois, Félix retorna acompanhado dos sugestivos Los Clavos. Quando li a descrição que faz para a banda na entrevista abaixo, pensei nos viscerrealistas de Detectives Salvajes, do Bolaño. Música como sensação, como pasión e exercício visceral. Continuará, o disco que marca a volta de um trabalho autoral em disco, virá em vinil duplo e será lançado pela Crang Records. Já toca aqui em casa porque é bom demais.
Sensacional by sinopuedobailar
Você esteve um pouco afastado da música ou é impressão minha? O que andou fazendo desde a publicação de La vida secreta?
Passaram quase quatro anos desde La vida secreta. Não deixei de fazer música, pelo contrário. Produzi discos: os de Amadeo Pasa, Camile Barre, Claudia Sinesi, Ignacio Van Thienen; colaborei em Wu Wei do Nairobi, toquei com Siro Bercetche; gravei em Por, de Daniel Melero, toquei no Chile na apresentação da edição chilena de La vida secreta, e mais coisas, que agora não lembro. Nesses quatro anos, além dos projetos dos quais participei, me dediquei a encontrar uma nova maneira de compor. Cada disco que você termina pode ser sua própria sentença de morte, se você deixar.
Agora Félix y Los Clavos: o que muda?
Com Los Clavos, alcançamos uma conexão sanguínea e selvagem, que não tive em outros grupos. Não existe premeditação nem conceitos: uma forma física de fazer música. Quando levei as faixas de Continuará para o estúdio, não disse muito. Tinha só essa sensação na cabeça, que havia comentado com Benjamín, baixista e co-produtor do disco: fazer as músicas soarem em meio a um emaranhado de sons. Era uma ideia vaga e suficiente. Gravava guitarras e vozes de referência, e, depois de um bom tempo relaxando, começávamos a tocar, sem muitas indicações ou intenções. Fizemos um disco de “primeiras tomadas”. Sem saber a harmonia nem a estrutura, deixávamos fluir. Algumas vezes, ficou desordenado, absurdo, engraçado, e isso era exatamente o contrário do que eu vinha fazendo com os Huracanes.
Como será o vinil?
É um vinil duplo. A primeira parte, que fiz com Los Clavos, é um disco de canción- noise, para classificá-lo de alguma maneira. É emocional, místico e misterioso. Produzimos Benjamín Ochoa e eu. O segundo é mais um disco de Melero que dos Clavos. Algo bem pouco usual. Quando fiz a mixagem, entrei em contato com Daniel, não só porque havia feito um excelente trabalho de pós-produção em La vida secreta, mas também porque eu estava convencido de que seria o primeiro a propor alguma coisa completamente diferente. E foi exatamente assim: mandava as músicas, e ele devolvia quatro ou cinco versões, sempre muito variadas, vistas sob diferentes prioridades. O resultado disso foram muitas opções, e o melhor era escolher não apenas uma, mas várias delas. Vínhamos falando de fazer as canções soarem como se tivessem sido vítimas de transmissões espaciais – alguma coisa como enviar um arquivo a Saturno e resgatá-lo daqui da Terra, anos depois, com o som degradado e o efeito do tempo. Na hora de montar o tracklist, surgiu essa proposta de fazer dois discos, um com o Clavos, e outro, como se fosse o mesmo, mas recebido 200 anos mais tarde, via transmissão de satélite. Não é um disco de remixes, é uma continuação no tempo, ou a mesma obra vista em dois momentos distintos.

