
Recebi El festival del beso, em disco, de Pablo Malaurie, ontem. Provavelmente o disco mais bonito de 2010, que só descobri no dia 26 de dezembro, pós-Natal. Ressaca, as ruas vazias, a família teve muito mais beijo e menos partilha um dia.
De repente, o festival do beijo acontece. De repente e, gracias, de novo.
“Carmencita” é o pedaço mais doce e melancólico da música independente latino-americana em anos. É delicada, dramática e suave. Aí, me lembro da montagem preta e branca que minha mãe fez com fotos de parentes que não conheci. Lembro de filmes mudos em Super 8 de uma tia que não vejo há anos. Penso em quando meu pai me acordou num sábado para dizer “vá ver o gol lá embaixo”, e eu, juro, corri esperando ver umas traves e uma rede no quintal, que tinha um carro vermelho.
Carmencita - Pablo Malaurie by sinopuedobailar1
O peito aperta, incha, e o mundo cresce - e diminui: há 5 anos a mãe de Pablo se disse “tchau”, enquanto eu estava dizendo tchau, no aeroporto, para um mundo de coisas que conheci del otro lado del charco. Ficaram muitos beijos. Ficou muita saudade.
Ninguém diz mais, porque todo mundo já entendeu: são as boas ideias e a pasión que justificam um hóspede na sala ou no quarto de casa. Agora, tenho uma embalagem de papelão, com postal e dedicatória, que Pablo postou em algum correio de Buenos Aires. Tenho e vai ser para sempre. O disco, curioso, é, como nunca, a melhor coisa que um músico pode entregar. Pablo entrega, dedica e manda beijo.
“El festival te bienviene de puño y letra. Esto es música nueva del año 500 y viaja por correspondencia.”

Malaurie fez de “Motel Shanghai”, “Vení” e “Mañana Bucólica” um festival de poesia com textura de toca-discos anos 40 e melodias com apelo pop. Um festival que deixa a gente confuso, porque é muito, sendo simples: um ukelele, uma voz, um violão, um vibranjo ou uma linha delicada de trompete.
Desastres naturales - Pablo Malaurie by sinopuedobailar1
É por isso que os argentinos se beijam.

