
Franny Glass é um fenômeno. Quando lapida o casamento entre pop e folk, ou, agora, quando assume o risco de mudar, e muda, costurando mais folk com pitadas generosas de tradição.
El podador primaveral é um dos discos do ano. E não quero falar de amadurecimento, porque, na prática, o terceiro álbum do uruguaio é o passo seguinte da experiência solitária de alguém que conversa com o mundo através do violão e da melodia. Consequência importante em quem usa, inteligentemente, as próprias experiências para cantar os sonhos e as decepções dos outros - porque, ao ouvir a faixa título (“…la época en la que usaba gel”), ou a belíssima “Me acuerdo de Felipe”, nos lembramos desesperadamente de nós mesmos e de tudo que deixamos pelo caminho. Estamos sobrevivendo. Escrevendo um blog, descobrindo ídolos, experimentando piadas inéditas, ou fazendo música.
El podador primaveral - Franny Glass
As letras, sempre um dos feitiços de Gonzalo, alcançam força raríssima e necessária. A arte precisa de um relato como “La casa abandonada”. Precisa da provocação de uma “Estás equivocada en darle gracias a Dios”. Precisa da doçura de “Fin de verano”. A arte latino-americana, e a não latino-americana, precisa das ideias, das saudades e dos recuerdos de Franny Glass.
Franny Glass - En Otoño, amiga mía
Em todo o disco, Gonzalo dedilha mais, sobe um pouco a voz, incorpora antigas referências de um jeito novo e prepara um ninho diferente. Esqueço Belle & Sebastian, e me lembro de Franny Glass, da história e da música que está construindo, e das melodias lindas de Eduardo Mateo, que o próprio Gonzalo me apresentou.
Estamos diante de uma música enorme, de uma voz que muda a disposição do quarto, que derruba a resistência à novidade, respeitando o tempo de antes e a nossa dificuldade em entender as dúvidas de agora. Totalmente fabuloso.

